ALUÍSIO, 95. Professor.

8 de agosto de 2018

O Professor Aluísio Pimenta, falecido no dia 09 de maio de 2016, fundador da FADECIT, se estivesse vivo, completaria no dia 09 de agosto, 95 anos.

Nascido em Peçanha, interior de Minas, Aluísio foi criado em uma família numerosa. Em uma entrevista realizada em 1978, para o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), ligada a Fundação Getúlio Vargas, ele afirmou que sua família lutou com muita dificuldade: “Minha ideia era estudar farmácia para substituir meu pai, ou exercer a profissão com ele. Mas, em Belo Horizonte, tive que trabalhar para estudar. Comecei na Drogaria Araújo das dez a meia da noite, e isso era muito pesado”.

Talvez seja essa a parte da biografia do querido Professor Aluísio que viria moldar a personagem que hoje está intrinsecamente ligada a nossa Fundação, seja tanto pelo exemplo, quanto pela abnegação.

Sua figura de homem público e humanista é defendida pelos numerosos colaboradores com quem trabalhou e, tornou para muitos, um legado a seguir.  O então Reitor da UEMG, Professor Dijon Moraes, disse na outorga de Honoris Causa ao Professor Aluísio Pimenta: “é outra faceta preciosa de sua personalidade. A total ausência de preconceitos, a valorização do ser humano pelo que tem de melhor dentro de si, sem distinção de sexo, cor, credo ou nacionalidade”.

Quando se fala de Aluísio Pimenta, recordamos sua vocação e missão: a universidade.

Formado em 1945, no ano seguinte tornou-se professor-assistente da cadeira de farmácia da Universidade de Minas Gerais (UMG), como era então conhecida a UFMG, lecionando também no Colégio Estadual de Minas Gerais. Após fazer especialização em Química Orgânica no Laboratório Paulista de Biologia da Universidade de São Paulo (USP), retornou a Belo Horizonte, e em 1947 foi aprovado no concurso para professor livre-docente de Química Orgânica e Biológica da Faculdade de Farmácia da UMG. Chefe do laboratório da unidade em 1948, no ano seguinte foi efetivado como assistente de Farmacologia da Faculdade de Medicina da Universidade, tornando-se ainda Catedrático de Ciências Naturais no Colégio Estadual. Dois anos depois, doutorou-se em Química Orgânica e Biológica pela UMG, assumindo a cátedra da disciplina nas faculdades de Farmácia e de Filosofia, Ciências e Letras. Entre 1953 e 1954, realizou curso de pós-doutoramento em Química dos Produtos Naturais no Instituto Superior de Saúde de Roma. Nesse período, recebeu orientação do Professor Daniel Bovet, que, alguns anos depois, seria homenageado com o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina.

“Se hoje podemos falar de uma Universidade [UEMG] com vários cursos superiores, diversos programas de pós-graduação lato sensu, mestrados e doutorado, e de um rico projeto de extensão no território mineiro é porque tivemos, na origem, um protagonista de primeira ordem, que a concebeu a imagem de sua grandeza e altivez (…) e emprestou seu prestígio pessoal, reconhecido nacional e internacionalmente, para o crescimento e consolidação desta importante instituição mineira” disse acertadamente o Professor Dijon Moraes.

O Professor Aluísio Pimenta tornou-se Reitor da UFMG em 21 de fevereiro de 1964. Foi aos 39 anos, o mais jovem professor a dirigir a principal Universidade mineira. E deste modo começou sua tortuosa relação com o regime militar, instaurado em nosso país, naquele ano.  Algumas anedotas surgiram dessa relação tensa e que de certo modo, desenha para a posteridade o espírito ousado e intrépido daquele Professor que não media esforços em zelar pelos seus alunos.

Conta-se nos anais da UFMG que o reitor Aluísio Pimenta recebeu um recado de um oficial subordinado ao General Carlos Luís Guedes, da Infantaria Divisória nº 4. Guedes queria que o Reitor baixasse uma norma proibindo os estudantes de usarem cabelos longos. Aluísio fez então chegar uma resposta aguerrida: “Não mando nem meus filhos cortarem o cabelo”. A cabeleira dos alunos da UFMG não foi o único ponto de discordância entre o Professor e o General Guedes. Diz um artigo publicado na web da UFMG que o Militar esteve convencido de que Universidade era um refúgio de comunistas e determinou que o Professor Aluísio Pimenta instituísse uma comissão, sob a presidência de um Coronel, para investigar os subversivos. Aluísio acatou a ordem e nomeou a tal comissão, mas num gestou ousado, não incluiu ninguém do Exército e após a sindicância apresentou os resultados da investigação ao General Guedes. O Relatório trazia que a Universidade não era um covil de comunistas. O General Carlos Guedes chamou-o e disse que relatório era uma “farsa” e deu um murro na mesa. Dizem os cronistas que o Reitor então respondeu com dois murros e disse ao militar que não admitia uma ofensa daquela à Universidade.

Anos depois, já afastado o fantasma da repressão, ele viria fazer parte do projeto que transformaria a Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) em um dos grandes centros da sapiência no território montanhês. Um dos seus grandes sonhos foi conceber uma universidade multicampi levando o desenvolvimento e o conhecimento às diversas regiões carentes de Minas Gerais. Na UEMG, ele foi o primeiro Reitor e um símbolo de probidade e honradez.

Neste momento lamentável em que, mais uma vez, a cultura é vítima da falta de compreensão de sua importância por parte dos dirigentes do País, dos seus empresários e até da sociedade civil, o Professor Aluísio é um referencial de amor à nossa cultura regional, folclórica e patrimonial. Defendeu com ardor nossa “brasilidade”. “Eram os anos 80 e Aluísio virou chacota com uma boa dose de preconceito pelo seu jeitinho caipira afável e carinhoso. Seriam virtudes, mas a arrogância despreza o simples! Saímos em sua defesa não pela polarização entre apocalípticos e integrados, mas pela carga simbólica, antropofágica dessa deglutição do Bispo Sardinha, agora farelo de milho” escreveu certa feita TT Catalão, diretor do Departamento de Patrimônio Imaterial do Iphan.

Não seria exagero concordar com a pesquisadora Isaura Botelho: o Professor Aluísio deixou-nos um legado de “generosidade e honradez”. Sua gentileza e boa vontade o tornaram alvo fácil de críticas vindas de todos os lados. O ministro Aluísio Pimenta sofreu uma intensa campanha de desmoralização feita pela imprensa escrita e mesmo televisiva. Problemas não foram poucos: desde a formulação da ‘‘política da broa de milho e do pão de queijo’’, da “releitura do país” e da “municipalização da cultura” até as dificuldades ligadas propriamente à gestão. Aquilo que naquele momento se configurou como um discurso ingênuo, hoje seria visto certamente de outra maneira a partir da força que o reconhecimento do patrimônio imaterial assumiu desde os anos 2000, criando a figura do registro que beneficiou o acarajé, o pão de queijo, as rodas de samba ou as folias de reis, refletiu a pesquisadora em seus textos sobre a figura do Professor.

Aluísio Pimenta foi aquele que saiu em defesa da autonomia universitária, da pesquisa, da assistência estudantil, da cultura, da educação e da ética na politica.

Um dos seus grandes feitos se encontra a criação da Fundação de Apoio e Desenvolvimento da Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais – FADECIT. Em 1995 o Professor Aluísio Pimenta, então Reitor da Universidade do Estado de Minas Gerais, presidiu a reunião em que se instituiu a FADECIT, cujo objetivo era apoiar o desenvolvimento de atividade de pesquisa, ensino e extensão, bem como o desenvolvimento institucional da UEMG. As ideias surgiram das conversas e conselhos dos amigos mais próximos do Professor Aluísio Pimenta, como o Professor Ramon Villar Paisal, então Diretor de Recursos Humanos da Fundação João Pinheiro da FAE/MEC, aliás, eram amigos desde os tempos da ditadura militar que se instaurara no Brasil em 1964. Após meses de debates entre os instituidores, em 24 de abril de 1996, foi registrado o Estatuto da Fundação, marcando o nascimento da Instituição que agora completa 22 anos de existência.

A Fundação de Apoio à Pesquisa nasceu da necessidade de se criar uma Instituição comprometida com o desenvolvimento socioeconômico regional e nacional que pudesse colaborar com a Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG, em suas ações conjuntas nas áreas de Ensino, Pesquisa e Extensão. O Professor Aluísio Pimenta se cercou de pessoas mais preparadas para instituir uma Fundação que apoiasse as pesquisas que já existiam em algumas unidades da UEMG. Os instituidores da Fundação aceitaram a ideia do Reitor da Universidade e trabalharam, incansavelmente para a consolidação dessa Instituição, que hoje realiza sua missão apoiando e possibilitando o acesso à Educação e o que de melhor ela pode oferecer às pessoas e a comunidade ao seu entorno.

Este é o Aluísio que queremos recordar: um homem sempre lembrado como “aquele à frente de seu tempo” e que deixou marcas indeléveis através de seus escritos, de seus exemplos como homem público, educador, político, professor, escritor, além de sua agradável presença e refinada cultura.

 

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